Cazzullo: “A Rerum novarum fala a nós ainda hoje”
Para Aldo Cazzullo, a Rerum novarum de Leão XIII é um texto "extraordinariamente atual", capaz de falar também ao nosso tempo, mais de 130 anos após sua publicação. A encíclica - explica o jornalista e escritor, autor da introdução à nova edição publicada pela Livraria Editora Vaticana em conjunto com a HarperCollins, em entrevista à mídia vaticana - conserva uma força profética em suas denúncias das crescentes desigualdades e em seu apelo à dignidade do trabalho. "Há frases - observa ele - que parecem escritas hoje ou amanhã", e que apresentam a
doutrina social cristã como alternativa tanto à revolução quanto à indiferença, em nome do cuidado evangélico com os mais vulneráveis. O texto, prossegue, é também uma obra "muito agradável" do ponto de vista literário, escrita em latim claro e acessível até mesmo em outras traduções. Cazzullo enfatiza que Leão XIII antecipou muitos dos desafios da modernidade, e não é surpreendente que Leão XIV - que escolheu adotar seu nome inspirando-se no Papa Pecci – tenha colhido seu legado.A crise da política e o potencial da Igreja
Segundo Cazzullo, a crise da política e a crescente descristianização da era contemporânea não retiram o sentido ao ensinamento social da Igreja, condensado nesta famosa encíclica. Na verdade, tornam-no ainda mais necessário. Se o declínio da participação religiosa e a crise das vocações em comparação com o passado são evidentes, por outro lado - observa ele - "a Igreja nunca deve subestimar a enorme força que ainda possui". Para muitos, a fé cristã continua a representar uma esperança última, especialmente em tempos de crise. "Quando a pandemia, a guerra ou o sofrimento chegam", afirma, "o homem volta a buscar sentido na Igreja, porque só lá pode encontrar as palavras de vida eterna". Esta observação traduz-se num apelo para não dispersar a herança espiritual e cultural do cristianismo, precisamente num momento de desorientação global.
Ressonâncias com a Constituição italiana
Em sua introdução, intitulada "Dois Leões para duas revoluções", Cazzullo também identifica semelhanças surpreendentes entre a Rerum novarum e a Constituição Italiana, que entrou em vigor sessenta anos depois. Dois elementos em particular impressionam o autor: o valor fundamental do trabalho e o princípio da igualdade. O respeito ao trabalho, que permeia a encíclica de Leão XIII, é o mesmo que inspira o primeiro artigo da Constituição. E o mesmo se aplica à igualdade da pessoa humana perante Deus e a lei. "Não se trata de nivelar", esclarece Cazzullo, "mas de reconhecer a igual dignidade de todos, como filhos do mesmo Deus". Esse princípio também se reflete no pensamento franciscano, no desafio radical do Santo de Assis às hierarquias sociais.
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Um novo Leão para novos desafios
Quando questionado sobre os desafios que aguardam o Papa Leão XIV, Cazzullo não esconde sua admiração pelo novo Pontífice. Ele o chama de Papa "extraordinário", apreciando sua linguagem, estilo e firmeza, mas também sua serenidade e visão espiritual. Enfatiza sua continuidade com o Papa Francisco, que o quis em Roma e o promoveu no governo da Igreja. Segundo o jornalista, se Leão XIII enfrentou a revolução industrial, Leão XIV, como ele mesmo explicou, está às voltas com uma transformação igualmente radical: a digital. "A inteligência artificial - alerta o jornalista - pode representar uma grande oportunidade, mas também uma ameaça ao trabalho humano, especialmente o da classe média. E pode até gerar formas pós-humanas, ciborgues capazes de nos dominar em vez de nos servir". O Papa, acrescenta, "previu esses perigos desde seu primeiro discurso; nos alertou sobre eles, e estou convencido de que empreenderá um grande trabalho espiritual e cultural para tentar nos mostrar o caminho certo".
Rumo a uma nova ética social
Cazzullo, no entanto, acredita que os desafios atuais exigem uma "refundação da ética social". O jornalista denuncia uma situação global em que "quanto mais rico você é, menos impostos você paga", em um sistema caracterizado pela disseminação de paraísos fiscais, desigualdades patológicas e pela concentração de poder econômico e digital em poucas mãos. Essa tendência, explica ele, priva a comunidade de recursos fundamentais, empobrecendo serviços essenciais como saúde, educação e segurança. Portanto, é essencial revalorizar o gasto público bem administrado. Mas "não me parece – comenta - que a política, nem de direita nem de esquerda, esteja dando as respostas que os cidadãos precisam". "Os ricos – acrescenta - estão ficando cada vez mais ricos, não pagam impostos e também concentram poder econômico e controle digital em suas mãos: eles sabem tudo sobre nós, conhecem os dados de nossas vidas, nossas preferências, nossas inclinações, nossos gostos, nossas opiniões". "Isso - acrescenta Cazzullo - apresenta um cenário muito inquietador que põe em questão a própria dignidade humana que levou Leão XIII a escrever a Rerum novarum e que certamente está no cerne das preocupações do Papa Leão XIV."
A firmeza do Papa e a responsabilidade pelo futuro
Concluindo, Cazzullo aponta para um gesto que o marcou particularmente nos primeiros meses do pontificado de Leão XIV: o diálogo com o primeiro-ministro israelense Netanyahu, que telefonou ao Papa no dia seguinte ao ataque militar à igreja da Sagrada Família em Gaza. Leão XIV, embora tenha aceitado o telefonema, não cedeu em sua exigência de pôr fim à guerra em Gaza. Isso é um sinal, diz ele, da "firmeza com que o Papa fala de paz, denuncia as desigualdades e clama pelo controle ético das novas tecnologias". Em um tempo marcado por guerras, crises ambientais e mudanças de época, Cazzullo conclui: "um Papa que indica uma direção clara é essencial não apenas para os fiéis, mas para toda a humanidade". Porque a tarefa do homem - reitera - continua a ser aquela que lhe foi confiada desde o princípio: cuidar da Criação, proteger a dignidade humana, salvaguardar a sua própria espécie.
Fonte: vaticanneews.va

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