Portugal: novo núncio chega para se “colocar à escuta das pessoas"

 Dom Andrés Carrascosa Coso- Núncio Apostólico em Portugal

O Papa Leão XIV nomeou no passado dia 11 de dezembro o arcebispo espanhol D. Andrés Carrascosa Coso, de 69 anos, como núncio apostólico em Portugal. Já iniciou funções neste mês de fevereiro sucedendo a D. Ivo Scapolo.  Publicamos aqui um excerto da entrevista concedida a Paulo Rocha, diretor da Agência Ecclesia.

Gravamos esta entrevista na Nunciatura apostólica. Perguntava-lhe quando é que terá o prazer de receber aqui o Papa em Leão XIV?

Isso não sei, porque as viagens do Papa respondem a tantas coisas… Ele falou-me, há duas semanas, que vai vir, vai vir. Quando, não sei. Vai depender de tantas outras coisas.

Os 110 anos das Aparições de Fátima poderiam ser uma ocasião?

Poderia ser… Ótima, sim.

A canonização da irmã Lúcia também?

Mas isso já vai além das minhas possibilidades. E vai depender de tantas coisas da agenda papal, que não é fácil.

Mas o Papa em Leão XIV tem Portugal entre os seus destinos?

Óbvio, sim! Ele já pronunciou a palavra Fátima. Depois, ele mesmo falou ‘não sei quando vamos poder fazer’. Mas que está interessado em visitar Fátima, é óbvio.

Conhecer Portugal

D. Andrés Carracosa, que radiografia faz da Igreja Católica em Portugal?

Não me podem pedir isso, porque ainda não conheço suficientemente. Conhecer um país, conhecer uma Igreja, não é fácil. Seria irresponsável, pela minha parte. Conheço alguns bispos.

De que forma pensa levar por diante este desafio do conhecimento, de criar proximidade com a cultura portuguesa?

Acho que é preciso entrar com uma atitude de humildade. Não pode chegar a um país e pretender que já pode conhecer e falar.

Proximidade significa essa humildade de se colocar à escuta das pessoas, das situações, das culturas. Porque as culturas são tão diferentes: eu morei em tantos continentes, em tantos países, e compreende-se que este é um tema muito sério e que precisa levar a sério.

A minha atitude é aquela de escutar, de tentar compreender, conhecer, para depois poder interagir, caminhar junto com esta Igreja, com este país.

Consulta alargada para novos bispos

A nomeação de bispos é um dos trabalhos do núncio e o processo sinodal apelou a maior participação, a maior escuta, envolvendo mais pessoas. É possível, no atual quadro em que se desenvolve esse processo de nomeações episcopais, alargar essa consulta, é possível envolver mais pessoas?

Com certeza!

Uma vez falei ao Papa Francisco: Padre Santo, entre os meus muitos defeitos está também aquele de ser um núncio que consulta mais do dobro do núncio que mais consulta.

Membros do clero ou também leigos?

Alguns bispos, alguns padres, alguns religiosos, algumas religiosas, alguns leigos, algumas leigas. Obviamente! Povo de Deus são todos. Obviamente que não se pode consultar toda a diocese, mas um bom número sim. E, além disso, sempre vou visitar a diocese, vou ter um encontro com os padres, vou ter um encontro com a Vida Consagrada, vou ter um encontro com os leigos, vou explicar como acontece o processo, porque se não explicamos como acontece o processo, cada um imagina que estou como a política: vou-me aproximar de um deputado para ver se ele vai me propor para ser presidente da autarquia.

Então, nesse aspeto, eu acho que, para mim, não é uma coisa nova. Para mim, são 22 anos a fazer assim.

Processo sinodal, tudo bem! Para mim foi reafirmar uma coisa que já estava sendo feita.  Cada um tem o seu estilo, cada um tem o seu carácter. Para mim é essa abertura de consultar muitas pessoas. E também pessoas que pensam diferente umas das outras. Porque é inútil somente consultar pessoas que pensam de um jeito, porque você não chega a conhecer a realidade. Por isso, quando a consulta é ampla, as nomeações são muito mais… você percebe que “caem” como devem ser.

E faz com que a escolha de determinado bispo para uma diocese seja fruto também das opiniões dessa própria diocese?

Claro. Dessa diocese, mas também… Por exemplo: há pessoas que conhecem todo o país, a nível da igreja, algum trabalho que fazem, etc. Então são pontos de vista diferentes que integram uma visão global. Porém, o núncio escuta tudo isso, diz a sua opinião, apresenta uma terna. Isso chega a Roma e, no Dicastério paras os bispos, há 30 pessoas, cardeais, bispos, e o Papa Francisco colocou três mulheres. Cada um tem de dar a sua opinião sobre cada um dos candidatos. Tudo isso é transcrito e o Papa tem tudo nas mãos. No final, pode ser que o que o núncio achava que era melhor, o número um, e depois na conversa dos cardeais, o Papa pode dizer que o bispo é o número dois, por exemplo. Nada contra ninguém. Cada um tem de agir segundo a própria consciência diante de Deus.

Nova ordem mundial

Passou pela Dinamarca, pelo Panamá, pelo Equador. Países que experimentaram a pressão externa e a prepotência outros. Um tema que, nos dias de hoje, está muito a verificar-se. Acha que o multilateralismo está em risco e pode fazer com que o nacionalismo, com que potências dominadoras possam emergir de uma forma que ameace até a própria democracia e a subsistência de outros povos?

O risco existe. Está aos olhos de todo o mundo. Porém, acho que é um momento de caminhar com muita prudência, mas também com muita clareza.

Eu estou admirando o Papa Leão, que não fica calado, que diz as coisas com um enorme respeito, sem faltar à caridade, mas também sem faltar a verdade. Colocar na frente de cada pessoa a responsabilidade que temos, porque a democracia não é simples. No fim de contas, tem lugares onde… Ah, é melhor ter uma pessoa dura que diz, depois nós vamos fazer. É uma irresponsabilidade enorme…

É verdade que este mundo está mudando enormemente. Eu já trabalhei nas Nações Unidas, na Secretaria de Estado, muito perto do Papa João Paulo II. Fui responsável de toda a multilateral, que agora é um vice-ministério. Obviamente, o mundo não é o mesmo. Estamos correndo riscos.

É a lei da força que está cada vez mais presente?

Claro. Porém, depois vamos ver como a população de cada um desses países vai reagir, até democraticamente, porque esse é um princípio que é preciso salvar.

E também há muitos sinais de que há população que não está de acordo com essa maneira de agir. Vamos ver, é um momento muito intenso.

É um novo desafio para a diplomacia, também a diplomacia do Vaticano?

Óbvio, óbvio! Porque é dificílimo. Conversando com algumas pessoas que têm uma enorme experiência internacional, falavam-me que o mundo no qual eu trabalhei 50 anos, que têm sido até ministro dos negócios estrangeiros, com lugares altos nas Nações Unidas, etc. Hoje, não é mais o mundo no qual eu trabalhei. Volto a dizer: é uma circunstância que apela a uma grande responsabilidade de parte das pessoas que têm um poder, transitório como em toda a democracia, mas também acho que temos de lidar com responsabilidade com todos os cidadãos.

O novo núncio apostólico em Portugal nasceu em Cuenca, Espanha, a 16 de dezembro de 1955 e aí foi ordenado sacerdote a 2 de julho de 1980. D. Andrés Carrascosa Coso formou-se em Teologia Bíblica na Universidade Pontifícia Gregoriana em 1981, seguindo depois o percurso de serviço à diplomacia pontifícia, ao entrar na Academia Eclesiástica Pontifícia. Foi ordenado bispo na Basílica de São Pedro a 7 de outubro de 2004, pelo cardeal Angelo Sodano, então secretário de Estado do Vaticano.

Depois das missões diplomáticas na República do Congo, no Gabão, no Panamá e mais recentemente no Equador, D. Andrés Carrascosa Coso é núncio apostólico em Portugal.

 

Fonte: https://www.vaticannews.va

 

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