Cupich: reduzir a guerra a um videogame, profunda falência moral

 Casa Branca - Washington

“É repugnante”. O cardeal Blase J. Cupich, arcebispo de Chicago, foi lapidário ao definir assim - na conferência internacional “A Call to Conscience” sobre a paz, onde foi lida neste sábado, 7 de março, a mensagem do Papa - a decisão da Casa Branca de publicar, na quinta-feira passada, em sua conta oficial no X, um vídeo com cenas de filmes de ação populares, intercaladas com imagens reais dos ataques contra o Irã. “Uma guerra real, com mortes e

sofrimento reais, tratada como se fosse um videogame”, declara o cardeal em uma nota divulgada no site da arquidiocese, “enquanto mais de mil homens, mulheres e crianças iranianos morriam após dias de bombardeios com mísseis dos Estados Unidos e de Israel”.

A guerra tornou-se um espetáculo para os espectadores

“Esta representação aterradora — afirmou o cardeal estadunidense em seu ‘apelo à consciência’ — demonstra que vivemos numa época em que a distância entre o campo de batalha e a sala de estar se reduziu drasticamente. A crise moral que estamos enfrentando não é apenas uma questão de guerra em si, mas também de como nós, observadores, percebemos a violência, já que a guerra se tornou um esporte para espectadores ou um jogo de estratégia”. Enquanto isso, centenas de pessoas morreram, mães e pais, filhas e filhos, incluindo dezenas de crianças “que cometeram o erro fatal de ir à escola naquele dia”. Cupich lembra também os seis soldados estadunidenses que foram mortos e observa: “eles também são desonrados por aquela postagem nas redes sociais. Centenas de milhares de deslocados e muitos outros milhões estão aterrorizados em todo o Oriente Médio”.

Reduzir a guerra a um jogo é uma falência moral

Ele também observa que a plataforma online de apostas Kalshi pagou recentemente uma indenização de US$ 2,2 milhões aos usuários que não ficaram satisfeitos com a forma como a empresa pagou os US$ 55 milhões apostados na destituição do líder supremo iraniano Ali Khamenei após seu assassinato. As palavras de Cupich são inequívocas: “os jornalistas agora usam o termo ‘gamificar’(aplicar mecânicas, dinâmicas e elementos típicos dos jogos e videogames) a guerra para descrever essa dinâmica. Que profunda falência moral, porque a gamificação tira a humanidade das pessoas reais. Não nos esqueçamos de que um ‘golpe’ não é marcar pontos no placar, é uma família em luto cujo sofrimento ignoramos quando priorizamos o entretenimento e o lucro em vez da empatia”.

Eletrizados e cegos, assim perdemos nossa humanidade

“Nosso governo está usando o sofrimento do povo iraniano como pano de fundo para nosso entretenimento”, afirma ainda o arcebispo de Chicago, “como se fosse apenas mais um conteúdo para folhear enquanto estamos na fila do supermercado. Mas, no final, perdemos nossa humanidade quando ficamos eletrizados com o poder destrutivo de nosso exército. Tornamo-nos dependentes do ‘espetáculo’ das explosões. E o preço desse hábito é quase imperceptível, pois nos tornamos insensíveis aos verdadeiros custos da guerra. Mas quanto mais tempo permanecemos cegos às terríveis consequências da guerra, mais colocamos em risco o dom mais precioso que Deus nos deu: nossa humanidade”. E conclui: “Sei que o povo dos Estados Unidos é melhor do que isso. Temos o bom senso de saber que o que está acontecendo não é entretenimento, mas guerra, e que o Irã é uma nação de pessoas, não um videogame que outros jogam para nos entreter”.

 

Fonte: www.vaticannews.va

 

 

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