Presidente da Cáritas Portuguesa alerta para a realidade das pessoas sem morada
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Decorreu em Portugal, de 1 a 8 de março, a Semana Nacional da Cáritas. Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, Rita Valadas afirma que em Portugal “há muita gente sem morada”, entre legais, ilegais, portugueses e estrangeiros.
Considera que é importante conhecer a pobreza em Portugal relacionando a realidade com os dados do relatório anual “Pobreza e Exclusão Social”. É “absolutamente indispensável”, sustenta a presidente da Cáritas Portuguesa, “conjugar a realidade que se vê com os números que nos chegam”.
A entrevista é conduzida por Henrique Cunha da Renascença e Paulo Rocha da Agência Ecclesia. Rita Valadas começa por afirmar que nem sempre as percentagens dos números oficiais correspondem à realidade do território.
“Nem sempre as percentagens, que os números oficiais nos apresentam, correspondem à realidade do território. Isto é uma coisa que nós temos vindo a perseguir e a tentar perceber quais são, de facto, os mais vulneráveis, os mais frágeis, dentro das situações sociais na proximidade, porque o país não é igual, o país é muito diferente e não recebe as influências todas da mesma maneira. Portanto, realmente a nossa preocupação permanece em continuar a olhar para os números e para a realidade.”
Uma outra realidade, para além dos estudos?
“A realidade que os nossos olhos veem e que na nossa proximidade, que é única, vê muito melhor. De facto, a Cáritas tem este benefício de estar nos territórios, como eu costumo dizer, perto da igreja e do bairro e não há quem veja melhor que isso. Nem todos os dados são científicos, mas conjugar a realidade que se vê com os números que nos chegam é absolutamente indispensável para perceber o que está acontecendo no país.”
Potencia ainda mais o risco?
“Sim, claramente, não só potencia o risco, como cansa o estudo sobre esta realidade, porque é uma realidade conhecida que desconhecemos. Nós conhecemos os números, existem muitos estudos, as coisas oscilam entre percentagens, mas as percentagens não são pessoas, e a vida das pessoas não tem mudado tanto assim.”
A habitação é também um tema que, pelo menos a perceção que se tem, na opinião pública, é de que é difícil o acesso e é causador também de situações de pobreza extrema. Esse número já era mau o ano passado, é pior este ano?
“O problema não é só isso. É que, para muitos estudos, as pessoas que não moram não existem. E isto é difícil se calhar de perceber, porque nós gostamos de ver os estudos e os números e tudo isso, e depois ficamos muito contentes quando há menos gente abaixo do nível da pobreza, e depois há alguns fatores que não são tão fáceis assim. Se não se conta com as pessoas que não têm morada, claro que a situação é melhor, sobretudo numa altura em que há muita gente sem morada; legais e ilegais, portuguesas, estrangeiros, e essa leitura que nos é dada na proximidade não condiz muito com a melhoria dos valores da pobreza.”
Onde é que vive essa gente sem morada?
“Na rua… Ou em bocadinhos de rua. Estou-me a lembrar, por exemplo, que há espaços no Parque das Nações, onde mora gente debaixo de tampas de saída de ar condicionado, porque é quente, é extraordinariamente mais confortável que a rua. E vivem em estações de comboio, a tempo parcial, vão fugindo de uns sítios para os outros. E depois vivem em camas quentes, que é uma realidade que eu acho que nós não temos muita consciência porque não vemos. E também assistimos a tempos em que nós preferimos não ver. Saber que há zonas do país em que as pessoas utilizam a mesma cama para dormir, em horários diferentes, é extraordinariamente violento. E nós devíamos olhar para isto.”
Tem alertado para essa realidade. É uma realidade que tem aumentado?
“Ninguém sabe. Se alguém lhe der esse número, eu gostava de o ter. São pessoas, algumas delas ilegais, outras em algumas situações que não são propriamente ilegais… Há aqui dois níveis de pessoas: há pessoas que são ilegais porque ninguém as conheceu, e há situações de pessoas ilegais há muito tempo porque chegaram em situações especiais e depois nunca se legalizaram. São situações bastante diferentes. E depois há muitos estrangeiros que não tencionam ficar, e há muitos estrangeiros que querem ficar. Estas realidades não são iguais.”
Mas, nomeadamente, o número de pessoas em situações sem abrigo é mais conhecido, é mais quantificável, pelo menos. O estudo do ano passado apontava para uma duplicação entre 2019 e 2023. E agora, com a demissão do gestor dessa estratégia, o problema vai agravar-se ainda mais ou vai ficar mais esquecido?
“Infelizmente, o gestor não será a pessoa que vai influenciar este número. A falta de propósito no combate a esta situação é um bocadinho independente dos nomes. Eu tenho um respeito enorme pelas pessoas que têm trabalhado nesta área, que são muito importantes, mas nunca conseguiram fazer tudo quanto tinham intenção e projeto. Portanto, não podemos dizer que…”
O horizonte para acabar com as situações de sem-abrigo era 2025…
“Mas nunca houve o cumprimento da estratégia, e não tiveram os recursos, e vieram muito mais pessoas, e foram-se embora muito menos, e vieram mais pessoas da Ucrânia, e vieram mais pessoas da Índia.”
Significa que o número da população em situação de sem-abrigo vai continuar a aumentar?
“Eu não gosto de ser pessimista, e acho que nós temos condições para ter uma atitude em relação a isto. Nós precisamos de pessoas, de estrangeiros. Nós temos um problema com o envelhecimento da população, temos um problema com algumas áreas de trabalho, e agora com esta situação de catástrofe que tivemos, ainda precisaremos de mais, mas não podemos fazer isto uma coisa de bochechos, sem estratégia. Temos de pensar o que é que nós queremos para Portugal, quem é que nós precisamos e quem é que estamos disponíveis para acolher. Temos aqui uma duplicidade entre alguns que nos procuram a fugir e outros que nos procuram para saltar para o sítio qualquer.”
Uma estratégia a definir no terreno ou nos gabinetes ministeriais?
“Nos dois. Para já tem de haver
concordância entre as duas coisas.
Eu diria que o que nós precisamos é de uma leitura muito próxima do que se
passa e dos interesses que nós temos a caminho de Portugal, ou de pessoas que
sejam interessadas em vir, mas saber exatamente o que é que temos para
oferecer, porque senão isso é publicidade enganosa. Nós dizemos, venham, e
depois não temos coisas para lhes dar. É preciso dizer, nós precisamos de
pessoas nesta área, naquela área, damos estas condições e aquelas condições,
para poder permitir que as pessoas também fiquem. Para resolver problemas
agudos, com certeza, podem vir e ir, mas se nós queremos uma resposta de
construção, precisamos de pessoas que venham e que fiquem, e que queiram ficar
em Portugal com propósito.”
Podemos olhar também a outra estratégia, a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Também aí vai ser necessário rever metas, até pelos indicadores já disponíveis, que apontavam para, por exemplo, o risco de pobreza dos trabalhadores de 5% quando o ano passado era à volta de 9%. Este ano vamos ver como é que será?
Os indicadores de medição do risco de pobreza têm a ver com as políticas e com aquilo que nós pretendemos atingir. Aquilo que nós temos de cuidar é de que as pessoas têm condições mínimas de permanência em Portugal. Portanto, não vale a pena dizer que nós estamos abertos a receber pessoas, quando não temos condições para lhes dar. E as pessoas precisam de ter oportunidade de trabalho e de ter alguma estabilidade. Se é para ficar, têm de ter capacidade de constituir família e mantê-la, e habitação. Um conjunto de coisas algumas áreas têm respondido melhor que outras. Eu tenho visto imensas reportagens, por exemplo, em relação à escola. E eu acho verdadeiramente fantástico o que as escolas conseguem fazer com a literacia de estrangeiros em Portugal. É incrível! Mas também precisamos de outros recursos, porque não chega só saber pedir o pão ou a água. Assim cria-se uma ilusão. Se nós queremos que eles fiquem, temos que os cativar com interesses que também sejam deles, que sejam comuns. Sejam interessantes para Portugal e sejam interessantes para quem chega.
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