Papa: é mais fácil "alimentar" conflitos do que pessoas. Apostar no multilateralismo
Entre essas causas, o Pontífice aponta as crises hodiernas que não são mais "eventos isolados", mas se transformaram em "realidades persistentes", caracterizadas por conflitos prolungados, insegurança alimentar crônica, volatilidade econômica e crescente vulnerabilidade climática. E não só, como
observou na encíclica Magnifica humanitas, esta situação é fruto ainda da crise do sistema multilateral e da fragmentação da ordem mundial. Assim, não se trata somente de como intervir, mas compreender o motivo pelo qual este sistema produz os problemas que ele mesmo é forçado a corrigir.Esse clima de desconfiança, analisou Leão XIV, levou os Estados a destinarem progressivamente os próprios recursos à segurança nacional e à estabilidade interna, ignorando a cooperação internacional.
O paradoxo atual
Esta tendência gera o evidente paradoxo de uma “capacidade produtiva global sem precedentes” paralela “à expansão de áreas de extrema vulnerabilidade”, que o Papa assim sintetizou: "As mesmas forças que alimentam o crescimento econônimo muitas vezes agravam a exclusão e a marginalização". Assistimos a uma "burocratização da solidariedade" junto a uma "silenciosa mercantilização da vida humana". O resultado é que o acesso aos bens essenciais, inclusive ao alimento, é influenciado por considerações econômicas ou estratégicas. E quem não produz um valor quantificável corre o risco de se tornar invisível.
A solidariedade impedida por "incompreensíveis decisões políticas"
Desta forma, a pessoa humana perdeu a sua centralidade, e como denunciou o Papa Francisco em 2016, nesta mesma sede, as ajudas são obstaculizadas "por intrincadas e incompreensíveis decisões políticas, por tendenciosas visões ideológicas ou por insuperáveis barreiras alfandegárias", enquanto "as armas não".
Sendo assim, é mais fácil "alimentar" conflitos do que pessoas. "Esta realidade reflete não apenas carências operativas, mas também um profundo desequelíbrio nas prioridades políticas e morais", denunciou Leão XIV.
O risco de perpetuar "ciclos de fragilidade"
As consequências da fome, prosseguiu, se estendem para além dos diretos interessados, podendo comprometer toda a coesão social, aumentando o risco de conflitos e migrações forçadas, “perpetuando assim cliclos de fragilidade que, em última análise, incidem sobre a comunidade internacional”. São instituições como o PAM, ressaltou o Papa, que impedem que crises humanitárias degenerem num "colapso irreversível".
Retomar o multilateralismo
Para todas essas questões, o Pontífice propõe retomar a cooperação multilateral, porque nenhum Estado, hoje, pode enfrentar sozinho os desafios globais. A comunidade internacional deve estar unida pela preocupação por quem se encontra vulnerável, opondo-se à exclusão. Assim, o convite a caminhar juntos, em harmonia fraterna, deve se tornar o "princípio inspirador".
O encorajamento aos governos
Eis então o apelo do Santo Padre aos governos de todo o mundo, para que "renovem e reforcem seu compromisso, aumentem os recursos destinados à luta contra a fome e às suas causas profundas e removam os obstáculos que impedem às ajudas de alcançar quem necessita".
Para traduzir essas palavras em fatos, é preciso reduzir a burocracia supérflua, de modo que a transparência e responsabiliade estejam a serviço das pessoas e não se tornem um obstáculo às ajudas. Onde os Estados vacilam e o acesso humanitário é limitado, a Igreja Católica tem um papel importante, pois com frequência alcança as populações mais vulneráveis em regiões inacessíveis.
Resistir à mercantilização
Outro apelo do Papa é para resistir à "mercantilização das necessidades humanas fundamentais":
“Água, alimento e acesso à saúde não podem ser subordinados a considerações de mercado ou a interesses geopolíticos. O acesso ao alimento adequado é um direito humano fundamental radicado na dignidade de cada pessoa.”
Para Leão, não se trata somente de aliviar o sofrimento, mas enfrentar as causas de instabilidade geopolítica, já que a segurança alimentar é um componente essencial da segurança global e integral.
Um novo percurso é possível
O Pontífice concluiu afirmando que o que está em jogo não é só a eficácia de uma agência, mas a credibilidade da própria cooperação internacional. Um novo percurso é possível, afirmou, partindo da simplificação do método, priorizando o essenvial, sem que nenhuma pessoa seja esquecida.
"De fato, esse compromisso está enraizado no reconhecimento de que toda pessoa humana possui uma dignidade inerente e inalienável, que permanece intacta independentemente das circunstâncias, das condições ou da posição social. Enraizada no amor incondicional e ilimitado de Deus, essa dignidade pode ser descrita como infinita, pois nada pode diminuir, apagar ou negar o seu valor. É precisamente pela nossa fidelidade a essa verdade que se mede a humanidade da nossa política e, com ela, o futuro da comunidade internacional."
Fonte: vaticannews.va

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